Perguntas frequentes sobre desconstrução e desconversão religiosa
- Gabriel Silva

- há 3 horas
- 8 min de leitura

Indíce
Qual a diferença entre desconstrução e desconversão religiosa?
O que leva uma pessoa a desconstruir ou se desconverter de sua religião?
Quais os efeitos da desconstrução e da desconversão na vida de uma pessoa?
Qual o impacto que a desconstrução e a desconversão podem ter nos relacionamentos?
Não acredito mais na minha religião. É seguro compartilhar isso?
Qual a diferença entre desconstrução e desconversão religiosa?
A desconstrução religiosa é um processo em que o religioso começa a questionar aquilo que faz sentido e tem valor na sua experiência religiosa. Algumas experiências, narrativas e práticas que antes proporcionavam direção, sentido, comunhão, regulação emocional e diversos outros benefícios, passam a não exercer mais esse efeito. Para entender o que aconteceu e por que isso aconteceu, o fiel começa a examinar criticamente as bases teológicas, culturais e sociais da sua prática religiosa.
A desconversão religiosa é o que acontece quando, ao realizar esse exame crítico, a pessoa se desafilia de sua religião e abandona a sua crença. Nesse caso, após examinar o que faz sentido e o que não faz na sua tradição religiosa, a pessoa conclui que nada ali condiz com a sua identidade atual, mesmo que ela ainda possa ser um pouco ambígua. Algumas pessoas se desconvertem apenas da religião, da instituição, mas mantêm alguma forma de fé; porém, o termo "desconversão" é geralmente utilizado para pessoas que perderam a fé após o processo de desconstrução.
Uma desconstrução ou desconversão leva ao ateísmo?
Não necessariamente. Num processo de desconstrução, um fiel pode examinar as suas crenças e se aproximar de uma versão ainda mais íntima e fiel de sua religiosidade e espiritualidade, vivendo a sua fé de forma mais autêntica.
Quando ocorre a desconversão, ou seja, a pessoa deixa de se identificar com alguma tradição religiosa e, frequentemente, até mesmo de crer nela, ainda é possível que ela se encontre dentro de uma outra tradição religiosa, fazendo com que a desconversão seja apenas um ponto de partida para a conversão em outra religião. Em alguns casos, não se segue religião nenhuma, mas se adota uma prática espiritual personalizada.
Alguns outros, ao desconstruir a sua fé, vão concluir que não conseguem mais acreditar em nada sobrenatural, místico ou divino. Alguns se identificarão melhor como agnósticos, outros como ateus, enquanto outros não fazem questão de rótulos para definir a sua crença ou ausência dela.
Enfim, tanto a desconstrução como a desconversão podem levar a caminhos variados, não se limitando ao ateísmo.
O que leva uma pessoa a desconstruir ou se desconverter de sua religião?
Os motivos são variados. Experiências da vida que, na superfície, não parecem ter conexão com a vida religiosa, podem desencadear reflexões que esbarram na religião, já que ela costuma ocupar um espaço integral na vida de muitos fiéis (pelo menos quando falamos de religiões abraâmicas).
Algumas pessoas podem começar uma desconstrução por motivos políticos ao enxergarem a maneira como a sua igreja se posiciona politicamente ou ao verem a maneira como políticos utilizam a sua religião para ganhar votos e atraem uma multidão de fiéis para causas que não se alinham com a visão particular de religião do indivíduo.
Outras iniciam esse processo a partir das relações interpessoais, sejam elas fora ou dentro da sua tradição religiosa. Alguns veem pessoas de fora da sua igreja, por exemplo, agindo de maneira mais alinhada com valores religiosos do que pessoas de dentro. Outros veem pessoas de dentro agindo de maneiras desalinhadas.
Ao ter contato com ideias incompatíveis com sua tradição religiosa, na escola, na faculdade, no trabalho, na internet ou em qualquer outro lugar, algumas pessoas vão começar a refletir sobre o que é verdade e o que não é, e se essa resposta sequer pode ser alcançada.
Feridas emocionais vividas dentro da vivência religiosa também podem levar ao exame crítico do que é vivido naquele espaço e naquelas relações.
Esses são apenas alguns exemplos, mas diversos motivos podem levar uma pessoa a refletir e avaliar aquilo que acredita e vive, e a pessoa que vai vivendo esse processo é sempre diferente da pessoa que o iniciou.
Quanto tempo dura um processo de desconstrução?
A resposta mais honesta para essa pergunta é "não sei". A resposta que melhor dá uma previsão de tempo não é muito melhor: uma vida toda.
A verdade é que depende de diversos fatores:
O papel da religião na vida da pessoa
O quanto aquilo ocupava o seu tempo
Quantas e quais relações são atravessadas pela experiência religiosa
Quão radicalmente a sua vida vai mudar ao ressignificar suas crenças ou abandoná-las
Se possui uma rede de apoio para lidar com esse momento, etc.
Se a religião ocupa um papel central na vida da pessoa e todas as outras esferas da vida eram ramificações que partiam desse centro, então a reavaliação de diversas experiências pode continuar ocorrendo por anos, pegando a pessoa de surpresa.
Algumas outras só se diziam religiosas por fazerem parte da tradição passiva da família e por estranharem não seguir religião alguma. Essas ainda serão impactadas de alguma forma pela desconstrução, mas não na mesma medida que uma pessoa que se dedicava integralmente.
Não é à toa que utilizo a palavra "processo" para descrever a desconstrução. Um processo é contínuo, ele flui. Processos fluem em direção a algo e frequentemente encontram seu fim quando alcançam seu objetivo. Como o objetivo da desconstrução religiosa é se conhecer melhor em sua relação com a religiosidade, e nosso exercício de autoconhecimento nunca acaba, assim como nossa relação com a nossa história, fica difícil apontar um ponto em que se diga que a desconstrução religiosa se encerra.
A desconversão religiosa, porém, pode ter um ponto final mais ou menos fácil de identificar: o momento em que não se identifica/acredita mais em uma tradição religiosa.
Quais são os efeitos da desconstrução e da desconversão na vida de uma pessoa?
Os efeitos são múltiplos, tanto os positivos como os negativos, e, embora não tenha uma ordem certa na maneira em que os experienciamos, assim como muitas coisas na vida, frequentemente passamos pela dificuldade e adversidade antes de colher o benefício, mas isso não é uma regra. A experiência de cada pessoa é única.
Mas, considerando que os efeitos positivos muitas vezes são frutos da maneira com que lidamos com os efeitos negativos, vamos começar falando deles primeiro, que são, inclusive, motivos pelos quais muitas pessoas buscam a terapia. Efeitos negativos:
Falta de sentido/propósito
Falta de conexão com algo maior do que si próprio
Falta de pertencimento (é comum sentir que não se pertence à tradição religiosa da qual fazia parte, ao mesmo tempo que não se pertence a um mundo mais secular)
Conflito de identidade
Conflitos intelectuais e teológicos (dificuldade em conciliar ideias conflituosas quando ambas fazem algum sentido)
Conflitos sexuais
Feridas morais
Luto
Depressão, ansiedade e trauma
Apesar dessa lista de efeitos adversos, o processo de desconstrução, e até mesmo a desconversão, pode ter benefícios a depender da maneira que lidamos com ele:
A construção de um sentido e direcionamento mais flexíveis, adaptáveis às nossas particularidades e às mudanças que acontecem na vida
Maior variedade de conexões transcendentes
O desenvolvimento de um autoconhecimento que permite uma conexão maior consigo mesmo e com outrem
A flexibilidade para conciliar verdades contraditórias a depender do que faz sentido no momento
Maior flexibilidade para mudança (afinal, se mudamos a nossa experiência com algo que pode ser tão rígido como uma prática religiosa, o que mais não pode ser mudado?)
Diversos outros efeitos, tanto positivos como negativos, podem ser experienciados a depender da sua relação com a religião e com o espaço que ela ocupa/ocupava em sua vida. Como falei no início, cada caso é um caso, cada pessoa é única.
Qual o impacto que a desconstrução e a desconversão podem ter nos relacionamentos?
Isso depende de vários fatores:
O papel que a religião tem na sua vida e no seu relacionamento
O papel que a religião tem na vida da sua parceira/o
O que religião significa para sua parceria
A segurança (ou falta dela) na relação e o quanto dessa segurança é construída para além de fatores religiosos
Ex.: orar em conjunto pode ser uma atividade que, para muitos casais, oferece intimidade, afeto, acolhimento, aceitação, regulação emocional e até resolução de problemas. Quando um ou outro não vê mais sentido nessa atividade, isso pode afetar a segurança da relação. O casal que tem maneiras de oferecer segurança para além de hábitos e narrativas religiosas pode ser menos afetado
Quão bem cada um lida com ideias e valores diferentes
Como é a comunicação do casal (focada em compreensão ou em quem está certo? Foco em acolhimento ou resolução de problemas, em vez de focar nos dois?)
Como são as relações com as famílias e o quanto elas são atravessadas pela religião
Se o pertencimento religioso influencia os planos do casal (casar ou não casar? Ter ou não ter filhos? Crianças criadas dentro ou fora da religião? Dar ou não dar dízimo/ofertas? Quantas horas por semana são dedicadas à religião?)
Diversos outros fatores podem influenciar a maneira como uma desconstrução ou desconversão pode influenciar a relação. É bem provável que conflitos surjam e sejam bem desconfortáveis, principalmente se apenas uma pessoa do casal está passando pelo processo, mas isso não significa o fim do relacionamento. Dependendo da maneira como os conflitos são abordados, a relação pode passar pelo conflito e sair ainda mais forte.
A terapia pode ajudar a navegar esses conflitos de forma mais saudável.
Não acredito mais na minha religião. É seguro compartilhar isso?
Já deve ter ficado bem claro que a resposta para várias dessas perguntas vai começar com "depende". Algumas religiões, como as Testemunhas de Jeová, incentivam a desassociação de seus membros perante condições específicas e o efeito desse processo inclui não apenas a perda de cargos e funções dentro da religião, mas, frequentemente, o afastamento da própria família e de outros laços afetivos.Embora a maioria das religiões não assuma esse tipo de atitude como doutrina, famílias e comunidades podem adotar essa prática diante do que consideram inaceitável.
É claro que existem diversas dinâmicas familiares e diferentes maneiras de reagir àquilo que foge da norma (algumas famílias religiosas vão reagir bem a uma desconstrução ou desconversão, outras nem tanto). É importante considerar a segurança que sua família e suas outras relações te oferecem para revelar esse tipo de coisa.
O quanto você depende das suas relações também é um fator crucial. Todos nós dependemos, em algum nível, dos outros. Mas se seus afetos e sua segurança são muito atravessados por relações atravessadas pela religião, desvincular-se dela ou desenvolver novas interpretações consideradas radicais (ou até mesmo hereges) pode ter um impacto negativo nessas relações.
De outra maneira, se há uma dependência financeira, como quando se mora com os pais, e eles não oferecem muita segurança para expor divergências de pensamentos, revelar o seu processo de desconstrução ou desconversão pode ser um risco. Infelizmente, a realidade é que dinheiro é poder, e poder pode ser usado para o bem ou para o mal. Uma dependência financeira pode ser usada contra você numa situação como essa ("se você quiser continuar morando aqui, você vai frequentar a igreja!").
Compartilhar a sua desconstrução ou desconversão pode ser algo muito mais seguro quando há segurança nos afetos e nas relações, e, em alguns casos, segurança financeira. A construção de uma rede de apoio que compartilhe algumas opiniões e valores, mas também aceite e acolha as diferenças, é crucial para navegar por esse momento de maneira mais segura. Em alguns casos, essa rede pode ser construída a partir de relações existentes, mas, em outros, pode ser necessária a construção de uma nova rede de apoio a partir de novos relacionamentos.
Em ambos os casos, a terapia pode auxiliar no desenvolvimento de um repertório comportamental, emocional e social que podem lhe aproximar de um maior cuidado consigo mesmo/a.
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