O que religião significa para mim - B. F. Skiner


Título original: What religions means to me
Ano: 1987
Autor: B. F. Skinner
Publicada em: Free Inquiry
Tradução por: Gabriel Silva
Quem foi B. F. Skinner?
B. F. Skinner foi um psicólogo estadunidense, nascido em 1904, conhecido pelo desenvolvimento do Behaviorismo Radical e da Análise Experimental do Comportamento. Admirado por muitos, incompreendido por vários outros, ele é responsável por muito do que se sabe hoje sobre a ciência psicológica, até mesmo por coisas que não são atribuídas a ele.
Nesse texto, publicado na revista Free Inquiry em 1987, Skinner fala não de um ponto de vista teórico, mas de um ponto de vista pessoal, sobre o que religião significa para ele, um ateu, e como ele a vive no seu dia a dia.
Texto traduzido:
Eu cresci numa cultura moderadamente religiosa. Por muitos anos eu fui a uma Escola Bíblica Dominical Presbiteriana, onde uma professora simpática e liberal orientava seis garotos pelas lições fornecidas pela igreja, a maioria delas, como me lembro, sobre o Pentateuco. Quando eu estava no ensino médio, um relógio que eu havia perdido foi devolvido a mim de maneira que parecia miraculosa, e eu achei que Deus havia falado comigo. Pouco depois, eu perdi a minha fé e fui perturbado por isso por alguns anos. Na faculdade, eu frequentei a capela pelas manhãs, como era compulsório, onde nossos professores revezavam a leitura de passagens bíblicas, especialmente as parábolas. Isso explica por que, aos 82, eu levo uma vida meio religiosa.
Ciência, não religião, tem me ensinado meus valores mais úteis, entre eles a honestidade intelectual. É melhor ficar sem respostas do que aceitar aquelas que simplesmente resolvem a perplexidade.
Todos os dias eu faço a comunhão - não numa igreja com Deus, mas comigo, numa comunidade Thoreauviana de um só. Eu o faço por quarenta minutos enquanto caminho para o meu escritório. Uma vez eu trouxe comigo uma edição de bolso dos sonetos de Shakespeare e decorei alguns deles enquanto andava. Ocasionalmente, eu ainda recito um para mim mesmo, sempre surpreso pelo quão difíceis eles são de se lembrar. Normalmente, enquanto eu ando, eu coloco as tarefas do dia em algum tipo de ordem. Eu comunho comigo mesmo novamente pela tarde, enquanto escuto música - os quatro Bs (Bach, Beethoven, Brahms e Bruckner), Mahler, Wagner - em uma palavra, os Românticos. Eu não leio enquanto ouço, mas eu penso sobre o meu trabalho; e eu sempre tenho meu caderno de anotações à mão, pois é aí que ideias novas aparecem com mais frequência. Enquanto estou à minha mesa, eu pratico uma forma de Zen, como eu o entendo, me colocando na melhor condição possível para falar coisas. A escrita é um processo de descoberta. O artigo que eu concluo possui quase nada a ver com o artigo que comecei a escrever. Eu aprendo aquilo que eu preciso dizer.
Ciência, não religião, tem me ensinado meus valores mais úteis, entre eles a honestidade intelectual. É melhor ficar sem respostas do que aceitar aquelas que simplesmente resolvem a perplexidade. Eu gosto da resposta que Bertrand Russell dá à aposta de Pascal. Pascal argumentou que as consequências de acreditar em Deus eram tão imensas que apenas um tolo não acreditaria; mas, disse Russell, suponha que Deus valorize honestidade intelectual acima de todas as outras coisas e que ele nos deu evidências ruins de Sua existência e está planejando condenar ao inferno todos aqueles que acreditam Nele apenas pelos benefícios.
Como muitas pessoas, eu penso sobre as coisas. Como o mundo começou? Infelizmente, não estamos numa boa posição para responder. Nós vivemos num dos menores planetas de um pequeno Sol, em uma das menores de milhões de galáxias, e é algo extraordinário que tenhamos criado tanto sentido com os dados disponíveis. Ainda temos de encontrar respostas, mas o que nós encontramos é mais crível do que a hipótese de que o mundo é o trabalho de um criador. Como esse criador surgiu? Como criaturas vivas vieram a existir? Temos uma chance melhor de responder a essa última pergunta. Teorias moleculares atuais sobre a origem da vida parecem mais plausíveis do que aquelas que nos foram reveladas por um deus.
A natureza é maravilhosa, mas não é, eu acho, miraculosa. Nós começamos a aprender mais sobre ela assim que paramos de considerá-la como uma obra de um deus.

Cientistas poderão, um dia, construir grupos de moléculas que reproduzirão a si mesmas; e, se as moléculas o fizerem após sofrer variação, elas poderão evoluir e se tornar seres vivos. O que é o homem? Aqui, mais perto do meu campo, eu sou menos provável de concordar com os relatos científicos e acadêmicos. Eu acredito que a espécie humana se distingue por uma coisa: graças a um passo extraordinário na evolução, sua musculatura vocal ficou sob controle operante. Como isso levou à linguagem, autoobservação e autocontrole é uma história longa demais para ser contada aqui, e a resposta não é totalmente satisfatória; mas eu acho que é melhor do que dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de um deus criador. Com frequência, eu gostaria de conseguir orar. Eu quero ajudar as pessoas, especialmente àqueles que amo. Quando eu mesmo não posso ajudar, eu desejo que fosse possível chamar alguém que pudesse. Quando criança, eu chamava pelos meus pais, mas eu não acredito mais na possibilidade de chamar um deus como se chama um pai (ou mãe). Com frequência, eu me pego desejando agradecer pela boa sorte, como eu fui ensinado a fazer quando criança; mas eu não acredito que a boa sorte seja um sinal da graça. O que acontece, acontece, e nós devemos aceitar, não importa o quão difíceis sejam as razões (E eu não amaldiçoo Deus ou peço a Ele para amaldiçoar outros por mim quando sofro). Eu me maravilho com a complexidade da natureza. Eu vejo uma árvore alta e tento imaginar como uma célula na ponta da folha mais alta conseguiu chegar até ali. Eu vejo os corrupiões no nosso jardim retornando a cada primavera de uma viagem a milhares de quilômetros e me pergunto como isso é possível. A natureza é maravilhosa, mas não é, eu acho, miraculosa. Nós começamos a aprender mais sobre ela assim que paramos de considerá-la como uma obra de um deus.
As fés religiosas têm sido responsáveis por belíssimas obras de arquitetura, música, pintura, escultura, prosa e poesia. Elas uniram pessoas em comunidades duráveis. Em certas épocas, elas ajudaram as pessoas a se comportar bem umas com as outras e a gerenciar suas vidas com mais sucesso. Mas o poder aclamado de interferir em recompensas e punições sobrenaturais é o tipo de poder que corrompe e não é acidente algum que a religião hoje é tão frequentemente associada a terrorismo e repressão. Até na América relativamente pacífica, organizações religiosas tentam suprimir o conhecimento em nossas escolas, encorajam o nascimento de crianças indesejadas, impõem suas crenças sobre os outros por meio de ações políticas e, por diversas outras maneiras, interferem num viver pacífico e bem informado. Eu aceito o fato de que, assim como todas as coisas vivas, eu em breve deixarei de existir. Por um tempo, alguns dos genes que carreguei serão replicados em minhas filhas, e algo de mim sobreviverá nos livros que escrevi e na ajuda que ofereci a outras pessoas. A morte não me perturba. Eu não temo nenhuma punição sobrenatural e, é claro, nem sequer poderia aproveitar uma vida eterna na qual não haveria nada a mais para eu fazer, tendo concluído a tarefa de viver.

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