Psicólogos(as) e uma psicologia cristã: considerações éticas, profissionais e de liberdade religiosa


Acho que uma observação é importante antes de iniciar essa publicação: o que escreverei aqui é fruto de uma opinião pessoal e não consenso da psicologia como ciência.
No dia 31 de março de 2026, o Projeto de Resolução do Senado nº 3, de autoria do senador Magno Malta (PL/ES) foi publicado, com o objetivo de
[...] instituir, no âmbito do Senado Federal, a Frente Parlamentar em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos, com vistas a assegurar a observância de direitos fundamentais garantidos pela Constituição da República, especialmente diante de recentes iniciativas normativas que suscitam relevantes questionamentos de ordem constitucional.
Esse projeto é problemático, pois não se trata apenas de garantir a liberdade religiosa de profissionais de psicologia (que não está ameaçada), mas da liberdade de manifestar (termo ambíguo) essa fé no local de trabalho (como o ambiente onde ocorre a psicoterapia), sem considerar as maneiras que isso pode influenciar o paciente/cliente:
Art. 2º A Frente Parlamentar Mista em Defesa da Liberdade Religiosa dos Psicólogos Cristãos tem por objetivos:
I – defender a liberdade de consciência, de crença e de manifestação religiosa no exercício profissional, nos termos do art. 5º, incisos VI e VIII, da Constituição Federal;
II – promover o reconhecimento de que a religiosidade constitui dimensão integrante da identidade do indivíduo, não podendo ser dissociada artificialmente do exercício profissional;
Outros objetivos são citados, mas considero que esses dois merecem uma atenção especial pois, acredito, dão base para toda a argumentação a favor dessa "necessidade". Para começar, a liberdade de consciência e de crença de profissionais de psicologia não está ameaçada. Psicólogos, assim como qualquer outro profissional, são livres para crer e exercitar sua fé. O problema surge quando falamos de "manifestação religiosa no exercício profissional". A psicologia é uma ciência. Como tal, ela não adota a religião como MÉTODO, mas desenvolve os seus próprios, da mesma forma que é feito na medicina, na engenharia, na farmacêutica, nas ciências da computação, ou em qualquer outra área.
Algumas pessoas podem argumentar que a manifestação religiosa não seria um problema, contanto que ela não excluísse toda a construção teórica e técnica da psicologia, mas a complementasse. Ainda assim, isso seria problemático, pois pessoas de diversas tradições religiosas buscam terapia. Um praticante do candomblé pode não querer intervenções psicológicas pautadas no cristianismo, tanto quanto um cristão não deseja intervenções pautadas no candomblé. Novamente, alguns podem argumentar que cada praticante de cada religião pode buscar um profissional que compartilhe da sua visão de mundo e religião. Isso seria um grande desafio, considerando a desproporcionalidade entre praticantes de cristianismo e de outras religiões no cenário brasileiro. Isso considerando um cenário que não é realidade da maior parte da população: um em que pessoas buscam a terapia particular e podem se dar o luxo de escolher profissionais à vontade. Para muitas pessoas, a realidade é que elas são atendidas pelo profissional disponível no posto de saúde do bairro. Ela não tem esse poder de escolha. E se uma pessoa busca ajuda e o que encontra é um misto de atendimento psicológico e aconselhamento religioso de uma fé com a qual não compactua? Como um processo que se inicia desconsiderando um aspecto importante da vida de uma pessoa, favorecendo um outro com o qual não se identifica, terá um impacto positivo na vida dela?
Também é um engano a crença de que a psicologia não considera a religiosidade como uma "dimensão integrante da identidade do indivíduo". Diversos estudos afirmam isso. A dissociação da prática religiosa com o exercício profissional, porém, é importante para proteger tanto o exercício da profissão quanto a expressão da fé, pois nenhuma única pessoa, neste caso um(a) psicólogo(a), detém a autoridade ou poder para determinar como a religiosidade alheia deve ser vivida, já que esta diz respeito à maneira como cada um se relaciona com aquilo que considera sagrado e, em alguns casos, as instituições que afirmam se conectar a ele.

Uma outra consideração é importante: o cristianismo é uma religião proselitista e evangelista. Isso quer dizer que ela busca converter pessoas de outras religiões ou sem religião alguma. Talvez isso seja um motivo para vermos tanto esforço para uma psicologia cristã (mesmo o cristianismo em suas várias versões já sendo a religião mais comum no Brasil) e não vemos esforço algum por uma psicologia espírita, umbandista ou de qualquer outra prática religiosa comum no Brasil. A psicoterapia é sobre auxiliar pessoas a viverem de forma autêntica e saudável a vida que realmente faz sentido para elas. Como isso pode ser feito se há, ao mesmo tempo, uma tentativa, explícita ou implícita, de converter pessoas para algo que elas não são?
A liberdade religiosa do psicólogo cristão não está sob ataque. O Código de Ética da nossa classe não proíbe em nada o cristão, ele orienta o psicólogo a fim de proteger não apenas a nossa classe, mas àqueles que contratam ou utilizam os nossos serviços, muitos dos quais são cristãos.
A religião é bem-vinda na clínica: como tema de relevância na vida do paciente/cliente. Da mesma forma que é a família, o trabalho, o lazer, a saúde, e qualquer outra área da vida de importância para quem é atendido. O que é proibido é induzir o cliente à ideia de que o formato X de família, trabalho, lazer, saúde e, sim, religião, é o certo para ele, mesmo que de forma muito sutil.

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